A CULTURA COMO ESTRATÉGIA PARA CONSTRUÇÃO DE CIDADANIA

Rosane Magaly Martins

Pela segunda vez em quase 27 anos de existência do Conselho de Cultura de Blumenau artistas e produtores culturais reuniram-se em conferencia, para discutir, analisar e deliberar sobre os caminhos a serem trilhados coletivamente e desenvolver as políticas culturais em nosso município. A 2ª Conferência Municipal de Cultura reveste-se de importância por diversos motivos. O primeiro, por trazer para Blumenau pela primeira vez em sua história, o presidente da Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), Celso Frateschi, para que fizesse a conferência de abertura. A segunda pela realização neste mesmo momento do 1º Fórum de Entidades Regionais, em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Regional do Governo de Santa Catarina, com o intuito de ampliar as ações culturais na grande região metropolitana de Blumenau, de todo o entorno do Vale do Itajaí. Aproveitar experiências exitosas, auxiliar aquele que estão com dificuldades similares, discutir sobre a circulação do produto cultural entre estas cidades e entidades, criar um calendário regional de arte e cultura foram pontos debatidos no fórum. E em terceiro, a importância da Conferência no momento de transição na direção da Fundação Cultural de Blumenau, onde os resultados da Conferência poderão nortear suas ações, caso seja sensível aos apelos aqui contidos.
A cultura de nosso país passa por um momento importante, onde o artista deixa de ser apenas um “pedinte” e estar com o “pires na mão” e ele percebe que a cultura é estratégica para o desenvolvimento do cidadão, assim como a arte é uma forma sofisticada de relacionamento e que envolve todos os sentidos humanos. O presidente da Funarte destacou na Conferência que os artistas são imprescindíveis à existência da coletividade justamente por serem extremamente críticos, audaciosos e de percepção aguçada.
Desta forma, a cultura deverá ser encarada como eixo estratégico para o desenvolvimento social, e deveremos buscar caminhos que construam a cultura como Política de Estado e não cultura como Política de Governo, que fica a mercê de quem assuma funções diretivas. Do mesmo modo os nossos artistas também devem aprofundar o olhar para a sua produção, a difusão de suas ações, criação de infra-estrutura cultural e política para a formação de público. Da mesma maneira percebe-se que a Cultura não poderá, jamais, atuar de maneira isolada e é cada vez mais premente a necessidade de estreitar laços e relação com a educação, percebendo-se que a arte possui utilidade e necessidade, e deve ser encarada com seriedade pelos educadores.
Nossos artistas são importantes aliado para o desenvolvimento da cidadania e de uma cidade efetivamente consolidada em pilares de arte e cultura estáveis, respeitosos sobre os quais ninguém jamais irá subjugar tais cidadãos.
Percebe-se os raios e os perfumes da primavera invadindo Blumenau. Inebriados com os novos aromas, que sejamos construtores deste novo tempo. Aproximar governos, maximizar as ações e estratégias culturais, democratizar as decisões e inserir artistas e produtores culturais num cenário de dignidade. Transformar sonho em realidade. Transformar obstáculo em aprendizagem. Criar novos cenários. Construir novos caminhos. Navegar outros mares, outros ares. Sem perder a ternura. Jamais.

Rosane Magaly Martins é presidente do Conselho de Cultura de Blumenau 2006/07


 

40 DIAS NO DESERTO

 

Sempre ouvi nos sermões dos padres durante a missa católica, apostólica e romana de domingo que Jesus teria ficado 40 dias e 40 noites no deserto, experimentando todas as privações e tentações do demônio. Teria até tido uma oferta generosa apresentada pelo Demônio, onde seu reino na terra estaria assegurado caso entregasse sua alma a ele. Plena vigília de 40 dias e 40 noites em busca de si e de Deus, em pleno deserto. Passados estes suplícios Jesus teria retornado fortificado em sua fé, irradiante de luz e equilíbrio, onde passou a disseminar a palavra de Deus, o Pai, por todos os cantos daquela região.

Com a devida vênia, posso dizer que passei por um período parecido, de 40 dias e 40 noites no deserto, após ter encerrado um casamento de 18 anos, dois filhos, uma cachorra, apartamento, discos e álbuns intermináveis de fotografias. Decidida estava em encontrar a terra prometida, a fé esquecida em busca de novos toques, contatos, orgasmos e relacionamentos. Estava engajada a sair de um estado de inércia para outro de maior intensidade e calor humano e deparei-me estar num deserto.

Os demônios que me tentaram não prometeram o paraíso na terra em troca de minha alma. Muito pelo contrário, falavam da situação tórrida pelas quais passavam as mulheres maduras, inteligentes e saradas que estavam em pleno tempo de liberdade. As casadas, em meus delírios,contavam  seus relacionamento conjugais com irmãos, onde a amizade vale mais que o tesão. As solteiras e até então sem muita experiência afetiva, asseguravam que a solidão é absolutamente confortável.

Em uma de minhas visões do inferno deparei-me com mulheres belas e curvilíneas (lipoaspiradas em prestações parceladas no cartão de crédito), siliconadas (se ousassem respirar fundo corriam o risco de morrer asfixiadas pelos seus belos pares de seios) reunidas em trios, quadrilhas ou bando por bares e restaurantes da moda. Dispunham estrategicamente as chaves de seus automóveis último ano sobre a mesa. Pediam drinques quentes e fortes ou coloridos e esfumaçantes. Decotes ousados como profundas eram suas eloqüentes falas sobre política, administração e economia. Era uma cena de ficção, lembrando homens inteligentes travestidos de mulheres poderosas e gostosas. Era realmente uma visão assustadora.

Em outro delírio no deserto, encontrei cenas de mulheres doces, suaves, maternais que cuidavam de seu lar, de seus maridos e seus filhos com toda a dedicação, empenho e suavidade admiráveis. Elas eram submissas a todos e perdoavam todos os deslizes carnais cometidos pelo parceiro (afinal são homens e tem necessidades diversas das mulheres, justificavam). Algumas esboçavam um olhar de “pobrezinha” para as solteira e separadas, como se fossem as piores das criaturas. Poderiam tranqüilamente cobrir o rosto, proibir-se de tudo. Orgasmo era uma coisa que sentiram vez ou outra, entre as inúmeras cópulas mantidas com seus fogosos e potentes maridos.

Em outra parte do martírio consegui perceber que os demônios não vinham do céu, nem do fogo da terra e das profundezas do inferno. Estavam ao meu redor, aconselhando-me diuturnamente. Frases de efeito, frases feitas, frases que não enxergavam minha alma. E depois de ter todas as visões do que poderia ser o inferno ou o céu em uma relação afetiva, conjugal ou amorosa olhei minha solidão, minha cama vazia, minhas camisolas e cremes hidratantes sem sentido.

Saindo do delírio de 100 dias de solidão olhei ao meu lado e só encontrei a ele, o homem que me jurou amor eterno. Como um anjo azul, limpou minha pele, desinchou minhas pálpebras de choros contínuos, massageou meus seios e encheu meus ouvidos de palavras doces. Serviu-me café, um doce, um ombro. Apertou-me em mim mesma entre seus ombros desenhados e desenvolvidos para me acolher. Enroscou suas pernas nas minhas e como polvo, dormimos.

Os 40 dias no deserto fez-me reencontrar o amor. O amor de todo dia, de 18 anos e sete meses e tantos dias, o riso, a alegria e o encantamento que já não mais reconhecia. Redesenhar estes dias, essas noites. Redescobrir as delicadezas e abandonar de vez nossas asperezas! E afastar-me definitivamente do deserto, pecados, tentações e purgações e dos 40 dias em que nele quase morri.

E confesso, foram exatas 73 noites. 

 

 

ROSANE MAGALY MARTINS

 

 


 

HÁBITO DA LEITURA

 

Saber ler é uma exigência das sociedades modernas. Há, contudo, uma importante diferença entre saber ler e a prática efetiva da leitura. Se a habilidade de leitura é uma necessidade pragmática e permite a realização inclusive de atividades básicas, como identificar uma linha de ônibus, ler ofertas ao realizar compras, entre outras ações, a prática da leitura é importante instrumento para o exercício da cidadania e para a participação social.

Anualmente vejo, leio, ouço discussões imensas sobre a necessidade de estimular nosso estudante ao hábito da leitura, fazendo disso uma meta que envolve destinação de verbas de governos municipal, estadual e federal. Então acontecem encontros, simpósios, congressos e outros eventos que  reúnem profissionais da educação para discutir o tema. Aqui mesmo em Blumenau aconteceu nos dias 29 e 30 de maio o 9o Encontro Regional do Proler.

Percebo o esforço de professores levando crianças às bibliotecas, promovendo sessões de leitura, recebendo os escritores em sala de aula (projeto autor-escola), envolvendo o aluno na criação literária (projeto aluno-escritor). Percebo também o esforço dos pais, comprando, muitas vezes com sacrifício, livros para seus filhos, e o esforço do governo, distribuindo livros, promovendo bibliotecas (o governo federal é o maior comprador de livros de todo o país). Tudo isso é importante, mas não muda a situação.

É difícil tornar um adulto não leitor em leitor. Mas é muito fácil tornar uma criança em leitora. As crianças costumam adorar livros, as histórias, as ilustrações, têm sede de conhecimentos, de fantasias, de descobertas, estão em fase de formação e de adquirir os gostos e hábitos que as acompanharão por toda a vida. Porque não introduzir em todos os currículos escolares a matéria leitura? Uma matéria agradável, de baixo custo e grande rendimento, que não precisa de novos professores, nem de professores especializados. Basta instruir os professores: leiam com as crianças, todos os dias.

O caminho é o de trazer o livro para o cotidiano, dele integrar a rotina tanto na escola como em casa. Não basta gostar, é preciso ter o hábito. E as crianças poderão desenvolve-lo se forem estimuladas e verem seus professores, seus pais, seus colegas lendo diariamente. Simples, aplicável, de resultado certo.

ROSANE MAGALY MARTINS é escritora e presidente do Conselho Municipal de Cultura de Blumenau.

 

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