ASPECTOS RELIGIOSOS DA MORTE

 

Rosane Magaly Martins

 

A morte é um processo biológico natural e necessário. É condição indispensável à sobrevivência da espécie. Através da morte a vida se alimenta e se renova. Desta maneira a morte não seria a negação da vida e sim um artifício da natureza para tornar possível a manutenção da vida.

O conceito puramente biológico de morte, entretanto, não é bem aceito pelo homem. O homem tende a analisar a morte filosoficamente criando aspectos que transcendem aqueles puramente biológicos.

Luiz Otávio Soares Dornellas, medico estudioso do assunto, observa que “a morte é vista de maneira diferente segundo diferentes grupos sociais e de acordo com aspectos religiosos, éticos e culturais. Basicamente a sociedade ocidental rejeita a morte procurando constantemente vencê-la e para isso se baseia no seu desenvolvimento científico”.

A música Time, do grupo inglês Pink Floyd, mostra a crença em uma morte puramente fisiológica: “O sol é o mesmo, mas você está mais velho, com menos fôlego e um dia mais próximo da morte”. Pesquisas feitas em diversos países comprovam que o idoso não sofre por medo da morte se consegue perceber que sua vida teve um sentido ou deixou um legado. O bom desenvolvimento psicológico da velhice deve, portanto, incluir uma boa relação com a perspectiva da morte.

Não há soluções mágicas para o problema de enfrentar a morte, mas caminhos a serem buscados. Para quem vai morrer, é essencial não se sentir abandonado, tanto pelos médicos quanto pela família e amigos. “Morrer ao lado dos que nos reconhecem como semelhantes e nos admiram pelo que fomos durante a vida traz a dignidade da morte”, sugere a psicóloga Clarice Pierre, autora do livro A Arte de viver e morrer, e especialista no acompanhamento a doentes terminais e crônicos. Aos médicos e instituições de saúde, cabe cuidar para que a morte seja vivida com o menor sofrimento possível. Aos poucos, a sociedade está chegando à conclusão de que prolongar a vida a qualquer custo nem sempre é compatível com a dignidade humana.

 

ASPECTOS CULTURAIS

 

Na Antigüidade prevalecia o sentimento natural e duradouro de familiaridade com a morte. Sócrates, por exemplo, ensinava-nos que a filosofia nada mais era do que uma preparação para a morte. Nas sociedades tribais, o problema da morte não existia porque o indivíduo tinha um peso muito diminuto com relação à coletividade. Deixando de viver, a pessoa imediatamente fazia parte da "sociedade dos mortos", inclusive, com a possibilidade de se comunicar com os vivos.

Segundo o historiador francês Philippe Ariés, em seu livro O homem diante da morte, este panorama mudou com o Cristianismo, especialmente na Idade Média. O culto aos mártires e a fé na ressurreição do corpo fizeram com que a morte fosse mais bem aceita, tratada com familiaridade e até indiferença. Com o tempo, os cemitérios passaram a ser construídos dentro das cidades e se tornaram pontos de intensa atividade social. A população era educada no sentido de aceitar a morte como um destino inexorável dos deuses. Dentro desse contexto, cada qual esperava passivamente a sua passagem deste para o outro mundo.

 

Uma nova mudança de mentalidade ocorreu a partir do século XVIII. A ciência da época colocava a culpa de diversas doenças nos odores que emanavam dos mortos, os chamados miasmas. O surgimento de uma verdadeira polícia sanitária, removendo e higienizando cemitérios, fez uma revolução na forma de lidar com a morte. Ela passou a ser uma ameaça à saúde dos vivos e o efeito psicológico que se seguiu fez com que a morte progressivamente se tornasse um tema proibido.

 

No século XX, o fenômeno se ampliou, mesmo com a posterior superação da idéia dos miasmas pela teoria microbiana. A aversão ao contato físico com o morto foi estendida ao processo da morte em si e aos doentes terminais. Para a psicóloga Clarice Pierre, “a sociedade expurgou e baniu a morte do convívio do homem contemporâneo, transformando-a em um tabu, em algo assustador e angustiante”.

 

O ato de morrer foi sendo retirado do espaço familiar e transferido para o ambiente hospitalar, especialmente nas nações ocidentais mais desenvolvidas. A morte, portanto, deixou de ser um acontecimento doméstico, centrado na preparação e despedida do doente e da família, para ser um evento técnico, solitário e, muitas vezes, impessoal, restrito aos hospitais e unidades de terapia intensiva.

 

“Quanto maior o progresso tecnológico, quanto maior o tempo de vida, quanto mais negarmos a morte, maior será o medo que teremos da mesma”, afirma Silvério Oliveira, em seu livro Sexo, sexualidade e sociedade, no qual explora os tabus do sexo e da morte. “A morte é limitadora e angustiante” – admite Clarisse -. “Porém, é ela que nos impulsiona a lutar pela realização dos projetos de vida levando ao autoconhecimento sem medo de vermos quem somos”.

 

 

ASPECTOS RELIGIOSOS

 

O que significa ser religioso? Significa quase tudo, porque as religiões dizem respeito à totalidade da vida – e à morte – do ser humano. Por milhares de anos as pessoas têm buscado o sentido e a verdade de sua própria natureza e do universo; as religiões, que lidam com a totalidade da vida e morte humanas, resultam dessa busca. Mesmo as ciências naturais eram originalmente religiosas; somente nos últimos trezentos anos religião e ciência se separaram como caminhos de conhecimento.

Vemos religiões hoje como comunidades de pessoas que compartilham práticas e crenças, que se reúnem em construções especiais para o culto ou meditação e que vivenciam o mundo de maneira especial. Mais de três quartos da população mundiais consideram-se pertencente a uma religião, independentemente do pouco ou muito que a pratiquem.

Originalmente não havia qualquer crença em uma vida significativa após a morte.             Quando muito, as pessoas acreditavam que uma sombra imprecisa continuaria a existir, mantida viva na memória de outros e dos descendentes. As grandes tradições religiosas do Ocidente e do Oriente estão fundadas em uma experiência das possibilidades deste corpo nesta vida. A crença que haverá alguma espécie de continuidade após a morte foi desenvolvida por nossos ancestrais através de suas descobertas no longo processo da exploração religiosa.

Mas o que todas as religiões têm em comum é que elas protegem as informações que capacitam as pessoas a estabelecer objetivos de significação e valor, tanto nesta vida quanto após a morte. Grande parte da informação religiosa nunca é colocada em palavras; ela se expressa em signos e símbolos, na arte e decoração, nos gestos e, muitas vezes, no silêncio. 

 

EGIPCIOS

Como reis divinos, os faraós não podiam ser destruídos, nem mesmo pela morte. A asserção de que eram imortais foi reforçada quando os egípcios descobriram como mumificar corpos mortos. Mais tarde (1567 aC) aqueles que pudessem observar e pagar pelos arranjos funerários adequados poderiam estar certos da imortalidade.

 

RELIGIÕES NÓRDICAS

Religião praticada pelos vikings remontam à Idade de Bronze escandinava (450 aC). Acreditavam que aqueles que morressem de doença ou velhice iriam para o reino de Hel, mundo sombrio com paredes cobertas de serpentes. Os guerreiros mortos em combate seriam resgatados pelas Valquírias, onde se deleitariam numa eternidade sensual.

 

HINDUISMO

Conjunto de religiões existentes na Índia crêem que devem passar por quatro estágios de vida: do estudante, chefe de família, daquele que se retira para refletir e o do que renuncia ao mundo. Os cultos se baseiam na devoção a três divindades: Shiva (destruídor), Vishnu (mantenedor) e Brahma (criador). A prática envolve imagens, orações e diagramas do universo e entoação de mantras (sons vibratórios que sintetizam a divindade). Buscam o Moksha, ou liberação do ciclo de renascimento (samsara) em mundos inferiores. Oração que resume a busca: “Do irreal, leva-me ao real. Da escuridão, leva-me à luz; da morte, leva-me à imortalidade”.

 

BUDISMO

O Budismo surgiu no norte da Índia em VI aC. quando Siddharta Gautama atingiu a iluminação, a verdade última mediante a qual uma pessoa liberta-se do ciclo do renascimento através da meditação e exercício espiritual. Igualmente entendem que há o renascimento por muitas vidas dependendo do carma (lei moral de causa e efeito), mas a descoberta de Buda foi que nenhuma alma renasce, porque não existe permanência em coisa alguma. O que existe é apenas a seqüência de um momento de aparência que dá origem ao seguinte, de modo que a morte simplesmente representa uma nova forma de aparência, humana ou animal, no céu ou no inferno. Há o Budismo Japonês – (Mahayana e zen) que surgiram por volta de VII aC e o budismo tibetano Tântrico (Vajrayana).

 

TAOISMO

Religião chinesa que mostra como é possível viver de acordo com o tao, indo ao sabor da corrente e não contra a maré. Para eles, como toda a natureza está unida ao tão, a imortalidade não pode ser atingida liberando-se apenas uma parte de si mesmo, como a alma. Ela só pode ser alcançada através das energias do corpo (exercícios respiratórios, controle e comando da energia sexual, pela alquimia, pelo comportamento e pela busca do caminho dos imortais). Na China existem também o Confucionismo (busca harmonia entre céu, terra e humanidade) e Budismo.

JUDAÍSMO

O povo judeu acredita ser descendente de uma tribo que viveu em Canaã, e todos seriam descendentes de Abraão (2000 aC.), que teria feito uma aliança com Deus prometendo-lhe uma terra onde jorrasse leite e mel. Baseiam sua vida na Bíblia (antigo Testamento). A lei permite ao moribundo por sua casa em ordem, abençoar a família, enviar mensagem aos que parecem importantes, e fazer as pazes com Deus. A confissão in extres é considerada importante elemento na transição para o outro mundo. O enterro de judeu ocorre o mais rapidamente após a sua morte. O corpo é lavado, coberto com uma mortalha de linho branco e colocado num caixão simples, de madeira, sem ornamentos. Uma oração para o moribundo: que a minha morte possa ser um perdão pelos pecados, transgressões e violações que cometi. E guarda meu lugar no Jardim do Éden, e deixa-me merecer o Mundo por Vir reservado aos justos.

 

CRISTIANISMO

Teve início com a vida, a morte e ressurreição e ascensão de Jesus, um judeu que os cristãos acreditam ser o filho de Deus. Os Cristãos vêem a ressureição como a primeira demonstração do que nos espera após a morte: ela conduz a vida humana para o próximo degrau em seu caminho de ascensão a Deus. No Catolicismo, a vida depois da morte está inserida na crença de um Céu, de um Inferno e de um Purgatório. Dependendo de seus atos, ele se dirige para cada um desses lugares circunscritos nos espaço. Jesus pregava que haveria um Dia do Juízo, quando todos serão julgados. Os maus irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.

Em XVI houve uma ruptura na Igreja. A igreja católica endossava o papado, os sacramentos e o uso controlado das escrituras. Os protestantes enfatizavam o relacionamento individual com Cristo, sem intermediação de um papa ou padre, e a primazia da escritura traduzida, bem como o fundamento da pregração, do ensinamento e da salvação.

 

ISLAMISMO

É uma religião de fidelidade a Deus que começou na Arábia no século VII com o profeta Maomé. Um quarto da população mundial é muçulmana. O Islã legou ao mundo a reconquista da ciência e da filosofia grega, da geografia, álgebra e alquimia. Igualmente acreditam que todo homem deverá, no Juízo Final, prestar contas a Deus sobre como ele usou o dom da vida. Os muçulmanos vivem na presença divina a qualquer hora, e especialmente na oração diária.(cinco, voltados para Ka´ba, santuário sagrado no centro da mesquita em Meca).

 

RELIGIÕES NATIVAS

São aquelas confinadas a estirpes, tribos e lugares particulares. Elas permanecem intocadas em regiões mais inacessíveis, como na Amazônia ou em ilhas indonésias. Não são uniformes, mas há generalizações possíveis. Possuem crença em um número imenso e muito ativo, de seres espirituais. Eles influenciam tudo o que diz respeito à vida. Algumas tribos realizam práticas xamânicas, que controlam o espírito no corpo e podem abandonar os estados cotidianos da existência a fim de viajar para outros mundos.

 

 

ASPECTOS FILOSÓFICOS

 

Os pensadores da humanidade desenvolveram, ao longo do tempo, três concepções de mundo: Materialista, Idealista e Religiosa. De acordo com essas concepções, construíram as diversas doutrinas. As mais importantes para o propósito de nossos estudos dizem respeito ao Niilismo, ao Panteísmo, ao Dogmatismo Religioso e ao Espiritismo.

 

Para o Niilismo, a matéria sendo a única fonte do ser, a morte é considerada o fim de tudo.

 

Para o Panteísmo, o Espírito, ao encarnar, é extraído do todo universal; individualiza-se em cada ser durante a vida e volta, por efeito da morte, à massa comum.

 

Para o Dogmatismo Religioso, a alma, independente da matéria, é criada por ocasião do nascimento do ser; sobrevive e conserva a individualidade após a morte. A sua sorte já está determinada: os que morreram em "pecado" irão para o fogo eterno; os justos, para o céu, gozar as delícias do paraíso.

 

Para o Espiritismo, o Espírito, independente da matéria, foi criado simples e ignorante. Todos partiram do mesmo ponto, sujeitos à lei do progresso. Aqueles que praticam o bem, evolue mais rapidamente e fazem parte da legião dos "anjos", dos "arcanjos" e dos "querubins". Os que praticam o mal, recebem novas oportunidades de melhoria, através das inúmeras encarnações. (Kardec, 1975 p. 193 a 200)

 

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

 

ARIES, P. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.

BOWKER, John. Para Entender as religiões. São Paulo: Editora Ática, 2000.

BOZZANO, Ernesto. Crise da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 1930.

KARDEC, A. Obras Póstumas. 15. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1975.

KUBLER-ROSS, E. Morte - Estágio Final da Evolução. Rio de Janeiro: Record, [s.d. p.]

 site IDADE ATIVA

http://www.techway.com.br/techway/revista_idoso/comportamento/comportamento_otavio.htm

 

IN… http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo069.htm

 

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