DO VIVER E DO MORRER
teoria e prática
 

Rosane Magaly Martins
Universidade Regional de Blumenau – FURB
 


Resumo: Foi-nos apresentada à tarefa de apresentar o ensinamento tibetano sobre a morte, com a leitura do “O Livro Tibetano do Viver e Morrer”, escrito pelo mestre de meditação budista e conferencista internacional Sogyal Rinpoche. Além das análises e considerações sobre o entendimento da morte entre o povo do Oriente e Ocidente, apresentamos de forma rápida e objetiva a forma como os budistas tibetanos encaminham seu final de vida, no aprendizado de práticas para uma melhor morte. Ao final é feito o detalhamento de uma experiência pessoal sobre a morte e o morrer, onde a acadêmica traz a público seus conflitos e passagem pelas fases da experiência de morte.
Palavras chave: Morte e o morrer. Prática meditativa p´howa. Budismo tibetano.
 

1. INTRODUÇÃO

Estamos imersos na morte desde quando inspiramos a primeira lufada de ar. Crêem algumas linhas terapêuticas que a vida começa e termina através da respiração, e por isso a crença que o espírito é o ar (está dentro de nós e ao nosso redor, infinito, onipresente, onisciente e onipotente) Mas nem sempre a morte é encarada de forma tão pacífica como a aqui descrita.
Entre as diversas imersões no estudo teórico da morte, encontramos o livro tibetano do viver e do morrer, escrito pelo monge budista Sogyal Rinpoche: “O livro Tibetano do viver e do morrer”.
A obra, além de ser notável e abrangente, aproxima a sabedoria milenar do Tibete à moderna pesquisa sobre a morte, o morrer e a natureza do universo. Com uma competência sem precedentes, o mestre de meditação budista e conferencista internacional Sogyal Rinpoche torna acessível à majestosa visão da vida e da morte que permeia o clássico Livro Tibetano dos Mortos.
Sogyal Rinpoche apresenta práticas simples, mas poderosas, oriundas da tradição tibetana, que qualquer um – não importa a formação ou religião que professe – pode realizar para transformar sua vida, preparar-se para a morte e auxiliar os que estão morrendo. Destaca a esperança que há na morte: indo além da negação e do medo, podemos descobrir aquilo que há em nós de imutável, e que nos faz sobreviver ao fim. Oferece ainda uma introdução lúcida e inspiradora à prática da meditação, ao karma e ao renascimento, bem como às provações e recompensas do caminho espiritual.
O aconselhamento sobre como cuidar com amor e compaixão dos que estão morrendo, proporcionando-lhes conforto e segurança espirituais, é um dos temas centrais desta obra, onde o autor expõe a experiência de quase-morte sob a perspectiva da tradição tibetana. Analisa com detalhes os estados de consciência pós-morte – os bardos – que são motivo de curiosidade e investigação de artistas, psicólogos, médicos e filósofos ocidentais desde a publicação do Livro Tibetano dos Mortos, em 1927.
Além de ser uma obra-prima espiritual, é também um manual, um guia, um livro de referência, uma fonte sagrada de inspiração que foi escrita com o propósito de convidar a todos para serem "servidores da paz", trabalhando neste mundo com alegria, sabedoria e compaixão e, desse modo, participar na defesa do futuro da humanidade.
 

2- CONTEÚDO

Ele diz na abertura da obra que quando veio pela primeira vez ao Ocidente. Teria ficado chocado com o contraste entre as atitudes em relação à morte com que ele havia sido criado e as que então encontrou. Apesar de todas as suas conquistas tecnológicas, a sociedade ocidental moderna não tem uma compreensão real da morte ou do que acontece durante ou depois dela. Ele acrescenta “Aprendi que as pessoas hoje são ensinadas a negar a morte e a crer que ela nada significa, a não ser aniquilação e perda. Isso quer dizer que a maior parte do mundo vive negando a morte ou aterrorizado por ela. Até falar da morte é considerado mórbido, e muitos acham que fazer uma simples menção a ela pode atraí-la sobre si”.
As pessoas freqüentemente são frívolas em relação à morte e pensam: Ora, a morte chega para todo mundo. Não é nada de mais, é apenas natural. Tudo irá bem para mim". Essa é uma bela teoria, até que se esteja morrendo.Dessas duas atitudes diante da morte, uma a vê como algo de que se deve fugir correndo, outra como um fato que simplesmente irá cuidar de si próprio. Entretanto, ambas estão distantes da compreensão do seu verdadeiro significado!


2.1. Prática da P´howa

O tibetano comum, com responsabilidades de trabalho e família, não pode devotar toda a sua vida ao estudo e à prática, ainda que tenha imensa fé e confiança nos ensinamentos. Quando seus filhos crescem e chega ao fim de sua vida — o que no Ocidente se chamaria de "aposentadoria" — ele normalmente faz uma peregrinação ou encontra mestres e se concentra na prática espiritual da P'howa. É freqüente, então, que seja treinado para preparar-se para a morte, com ensinamentos de um método de obter a iluminação sem a experiência de uma vida de prática meditativa

Na prática budista tibetana a presença central invocada é a do Buddha Amitabha, o Buddha da Luz Sem Limites. Amitabha goza de grande popularidade entre as pessoas comuns na China e no Japão, bem como no Tibete e nos Himalaias. Ele é o Buddha primordial da família Padma ou Lótus, que é a família búdica a que pertencem os seres humanos. Ele representa a nossa natureza pura e simboliza a transmutação do desejo, a emoção predominante do reino humano. Mais intrinsecamente, Amitabha é a natureza ilimitada e luminosa da nossa mente. Na morte, a verdadeira natureza da mente se manifestará no momento em que surge Luminosidade Base, embora a maioria de nós não tenha familiaridade com ela a ponto de reconhecê-la. Quão habilidosos e compassivos são os Buddhas por nos terem dado um método como esse para invocar a verdadeira corporificação da luminosidade, na presença radiante de Amitabha!

Na morte, explicam os ensinamentos, nossa consciência, que cavalga um "vento" e assim precisa de uma abertura para deixar o corpo, pode fazê-lo por qualquer uma das nove aberturas. A rota que ela toma determina exatamente em que reino da existência nós vamos renascer. Quando ela deixa o corpo pela abertura da fontanela, no alto da cabeça, vamos renascer, conforme diz, numa terra pura, onde podemos gradualmente seguir para a iluminação.

Não é necessário ter vasto conhecimento intelectual ou profundidade de realização para fazer a passagem com sucesso, mas somente devoção, compaixão, visualização focalizada e um profundo sentimento da presença do Buddha Amitabha. O estudante recebe as instruções e então as coloca em prática até que os sinais de realização apareçam. Entre esses sinais estão: coceira no alto da cabeça, dores-de-cabeça, surgimento de um fluido claro e inchaço ou uma espécie de maciez em torno da fontanela — ou até a abertura de um pequeno orifício ali, onde tradicionalmente coloca-se a ponta de um pequeno feixe de ervas como teste ou medida do sucesso da prática.

Recentemente um grupo de tibetanos idosos instalou-se na Suíça sob a orientação de um mestre de P'howa. Seus filhos, que tinham sido educados no país, eram céticos sobre os efeitos da prática. No entanto, eles se admiraram com a transformação de seus pais, que depois de um retiro de P'howa de dez dias mostraram alguns dos sinais de realização já mencionados.

Pesquisas sobre os efeitos psicofisiológicos da prática de P'howa foram realizadas pelo cientista japonês Dr. Hiroshi Motoyama. Mudanças fisiológicas precisas no sistema nervoso, no sistema metabólico e no sistema de meridianos da acupuntura foram registradas ao longo desta prática. Uma das descobertas do Dr. Motoyama ao estudar o funcionamento do corpo do mestre de P'howa que ele estava observando foi que os padrões de fluxo da energia pelos meridianos do corpo eram semelhantes aos verificados em pessoas com forte capacidade de percepção extra-sensorial. Ele também descobriu, através do uso de eletroencefalograma, que as ondas do cérebro durante a prática de P'howa são muito diversas daquelas encontradas em iogues praticando outros tipos de meditação.

Os resultados mostraram que P'howa envolve a estimulação de certa parte do cérebro, o hipotálamo, e também interrompe a atividade mental consciente ordinária, permitindo que um profundo estado de meditação seja experimentado.
Às vezes dá-se o caso de pessoas comuns terem, através da bênção de P'howa, experiências de visões muito fortes. Esses vislumbres da paz e da luz do reino do Buddha, e as visões que essas pessoas têm de Amitabha, lembram certos aspectos das experiências de quase-morte. E, como nestas últimas, o sucesso na prática de P'howa também traz confiança e destemor ao enfrentar o momento da morte.

A prática essencial de P'howa é tanto uma prática de cura para os vivos como uma prática para o momento da morte, e pode ser levada a efeito sempre, sem qualquer perigo. No entanto, a ocasião adequada para a prática tradicional de P'howa é de suma importância. Por exemplo, diz-se que tentar transferir a consciência de alguém antes do momento da morte natural é equivalente a um suicídio. O momento em que se faz P'howa é quando a respiração externa já cessou e a interna ainda continua. Mas talvez seja mais seguro começar durante o processo de dissolução e repetir a prática várias vezes.

Assim, quando um mestre que aperfeiçoou o método tradicional de P'howa faz a prática para alguém que está morrendo, visualizando a consciência dessa pessoa e ejetando-a para fora pela fontanela, é essencial que a ocasião seja exata e não cedo demais. Um praticante avançado e com conhecimento do processo da morte pode examinar detalhes como os canais, o movimento dos ventos e o calor do corpo para sentir quando esse momento chegou. Para pedir a um mestre que faça a transferência para alguém que está morrendo, deve-se contatá-lo o mais cedo possível, porque se pode fazer P'howa mesmo a uma certa distância.

Podem se apresentar muitos obstáculos a um P'howa bem sucedido. Visto que qualquer aspecto enfermo da mente, ou mesmo o menor desejo de posse, será um obstáculo quando chega a hora da morte, você deve tentar não ser dominado nem pelo mais leve anelo ou pensamento negativo. Acreditava-se no Tibete que fica muito difícil fazer P'howa quando no quarto onde está a pessoa que vai morrer há produtos feitos de pele animal ou derivados. Também o cigarro — ou qualquer tipo de droga — tem o efeito de bloquear o canal central, tornando essa prática mais difícil.

Diz-se que "mesmo um grande pecador" pode ser liberado no momento da morte, se tiver a sua consciência transferida para um reino búdico por um mestre poderoso e realizado. E este ainda pode influir sobre o futuro da pessoa através de P'howa, ajudando-a a renascer num reino mais elevado, mesmo se falta a ela mérito ou prática, ou se a execução de P'howa não foi totalmente bem-sucedida. Para que P'howa tenha sucesso, no entanto, as condições devem ser realmente perfeitas. O P'howa pode ajudar alguém com forte karma negativo, mas só se ele ou ela tem uma ligação próxima e pura com o mestre que faz a prática, se tem fé nos ensinamentos e se pediu, de todo coração, a purificação.

Num cenário ideal, no Tibet, membros da família normalmente convidariam muitos lamas para fazer P'howa até que sinais de realização se manifestassem. Eles poderiam fazer isso por horas a fio, centenas de vezes, talvez um dia inteiro. Alguns dos que estão para morrer não precisam de mais do que uma ou duas sessões para que se manifeste um sinal. Para outros, mesmo um dia inteiro de prática não é bastante. Isso é desnecessário dizer, depende muito do karma daquele que morre.


3. MINHA EXPERIÊNCIA DE MORTE

Pediu-se uma narrativa pessoal sobre uma morte pessoal, que tenha ocorrido na experiência pessoal do acadêmico. No meu caso, irei retratar, com detalhes sórdidos, uma das maiores perdas de minha vida, de forma prematura e irreversível, de meu pai, Alvary Martins, no ano de 1984, de infarto agudo do miocárdio, quando tinha completado 49 anos de idade.

Era a década de 80, onde os jovens ainda gostavam de pichar muros com frases “abaixo a ditadura”, entre outras. Estava eu com 21 anos de idade, recém separada de um casamento de três anos de duração, com uma filha de dois anos para criar e sonhos e uma faculdade a ser apreendida e vivenciada em sua plenitude.
Sempre tive um relacionamento íntimo e profundo com meu pai, tendo ele ao longo de minha vida sido o maior incentivador, apesar de possuir uma personalidade extremamente silenciosa. Mas quando lembro, hoje, de nossa relação, era como se tivéssemos uma empatia tamanha que nem precisávamos de palavras para entender o que queríamos dizer um ao outro.


Foi ele o grande apoiador do meu casamento, mesmo deixando claro que não iria durar muito, mas respeitava minha decisão. Foi meu grande apoiador quando pedi para retornar ao seu lar, pois não agüentava mais aquela situação de sofrimento em que havia me inserido. Foi o grande incentivador do meu retorno ao trabalho, à faculdade de Letras, na época, e de minhas loucuras de política estudantil.

Ele estava recém aposentado, vivendo calmamente seus dias e cuidando de minha filha de apenas dois anos de idade, que, segundo ele, era sua motivação. Eis que, numa certa tarde cujas nuvens no céu ficarão gravadas para sempre em minha consciência, meu gerente chamou-me à sua sala, pediu que eu me sentasse, e pressenti que algo ruim sairia de sua boca: seria demitida? A empresa iria fechar? Meu deus, que fazer? Pensava angustiada naqueles imensos segundos de espera... Seu pai foi levado ao hospital Santa Catarina. Parece que é coração. Calma... Ele está bem... Sendo atendido... não saia de moto... calma.., .disse meu gerente numa tentativa vã de acalmar-me.

Quando percebi estava pilotando feito louca minha motocicleta CG 125, que comprara com auxílio financeiro do meu pai para ter mais agilidade trabalho/faculdade/casa/filha/reuniões estudantis/etc.. Cheguei feito louca no hospital, chorando desesperadamente, sabendo dentro do meu coração que ele já estava morto. E ele estava morto. E eu também....

3.1. Negação/Rejeição
Não admiti que estivesse morto. Odiei aquele homem que morreu após o almoço, deitado em minha cama, em meu quarto, lendo poemas que havia escrito para ele. Seria eu a culpada? Odiei Deus (aliás, nunca acreditei muito naquela história de um ser super bom que estava a nossa espreita nas esquinas). No velório briguei com quase todos, de tão raivosa. Quase me joguei junto, na hora de baixar o corpo no cemitério. Os padres não vieram fazer a “encomenda”, pois meu pai não estava com o dízimo em dia. Que ódio...

3.2. Raiva
A raiva se instalou repentinamente e eu culpava minha mãe por não ter cuidado dele, por tê-lo traído e ferido de morte seu coração. Raiva de meu irmão por tê-lo incomodado tanto que acabou morrendo do coração. Raiva dos padres que não vieram acompanha-lo. Raiva de Deus por não existir, porque se existisse mesmo, ele não teria morrido. Um homem tão bom, tão digno, tão correto, tão perfeito não iria morrer assim, me deixando abandonada.

3.3. Barganha
Demorou muito para esta fase. Mais de três anos de raiva. Não visitava o cemitério, nem fiz sepultura. Não coloquei seu nome no mármore da família. Assim pensava que ele não estava morto. Sonhava quase todas as noites com ele. Conversávamos muito. Pedia que ele parasse com brincadeira e voltasse. Ele dedicou muitas e muitas horas de evolução tentando me dizer que o deixasse em paz. Chorava, pedia que voltasse, que me converteria numa católica de primeira, que faria caridade, que seria a melhor mulher do mundo, que deixaria a política estudantil. Implorei a Deus... e nada...

3.4. Depressão
Foram outros longos anos de choro, de tristeza, de lamentação. Procurei em outros homens o meu pai. Procurei em outras relações aquela perdida com meu pai. E eis-me aqui, jaz, sem pai...

3.5. Aceitação
Creio que aceitei definitivamente a morte do meu pai ano passado. Tremei, professora. Foram necessários mais de 20 anos para entender definitivamente que ele morreu, que não há retorno. Que ele está bem. Que eu tenho também que continuar a viver. Harmonizar-me com a sua perda foi meu grande aprendizado último. Realizei a exumação dos corpos dos antepassados todos, troquei de cemitério. Vi os ossos do corpo do meu pai e de meus avós e tios. Coloquei-os num local nobre, digno, no centro da cidade. Escrevi no mármore gelado seus nomes (nascimento e morte). Reuni meus filhos ao redor do seu túmulo e contei quem foi meu pai, suas características, sua hombridade, seus atributos. Choramos todos. Foi uma despedida digna de quem ele foi e é. Mas fiz tudo isso depois de, novamente, meu pai vir me explicar, numa noite de sonhos lúcidos, que estava cansado de tudo isso, que eu deveria arrumar sua sepultura e ter paz. Mesmo “morto”, entre aspas, ele me contatou, me orientou e deu paz ao meu coração.
3.6. O Hoje
Percebo que houveram muitas evoluções, ampliações da consciência, ensinamentos e aprendizados infinitos obtidos de vários mestres, de várias linhagens do conhecimento humano. Percebo-me agora num outro contexto, onde há espaço para o sagrado, para o divino e para o não explicado, assim como para o entendimento do que é o universo humano, onde o morrer faz parte da roda de samsara, infinita enquanto não soubermos nos elevar.


 


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