Conjugar o verbo AMAR
AMAR
Amar é possível
apenas na primeira
pessoa do singular.
Conjugado no presente do indicativo.
Intransitivo é o outro
Que insiste em me conjugar
em outros tempos!
(inserido no acervo virtual do Museu de Arte Contemporânea de New York)
EXCEPCIONALIDADE
Por um só momento
espreito o tempo
atrás da porta.
relega-me a solidão
de mim mesmo
Minhas linhas tecem
com o fio do sofrimento
perplexo que estreita o peito.
Dentro de mim
posso tudo
e você,
contudo,
vê
sem entender.
Dentro de mim
há anjos e demônios
há palavras e sons
há tessituras de asas
farfalhar de nuvens
o choro da mãe
e o abandono do pai.
Tudo.
Tudo
dentro de mim
a espera
a espera
a espera
do novo tempo
nova era
em que minhas asas
enfim, baterei.
DIA DE MORRER
Ser assim, num só instante,
repleta e inconsistentemente vazia.
As dores do mundo, submersas em mim.
Submundo interno, afogado nas suas armadilhas.
Andaria aos poucos, devagar.
Sorveria pequenos goles de chá de malva,
quente como aquele dia arquivado na memória.
Definho de uma doença incurável.
Alma cruel e distorcida.
E aquelas crianças não brincam mais,
sob o perigo do alto do morro
e cercas de arames farpados.
Dia de feira.
Dia de fiado na venda do Geraldinho.
Dia de finados na igreja do Vertolino
No fim do mês era maledicência e fome.
Ser assim, um só instante demais.
As agruras, as teias tecidas em teares de morte.
O algodão endurecido nos alvéolos que matam.
Nos mata aos poucos:
nos mata sem a fome agonizante.
Diários de um tece-lã
um tece-dor
de tessituras
da alma só.
Agora é apenas um nome esquecido
num cemitério popular de algum subúrbio.
A pensão da viúva não é reajustada há anos.
E todos esperam
um novo reencontro,
um recomeço
um novo fiar, tecer
e crer na vida.
DESEJOS ANUAIS
A cada ano um desespero
De contas e acertos finais
De cada ano desesperado
Nosso de cada dia.
após o pulsar da hora certa.
O gosto da champagne brut
Amarga o sorriso da manhã
A cada ano um sofrimento
a mais dos já acumulados
De cada ano desassistido
Nosso de cada hora
Como se não houvesse amanhã
Antes de cada hora incerta.
Esperar o gosto do beijo
Que me enternecerá o amanhã.
Virar o ano
Virar a página
Virar ninguém
Revirar noutrem
Iluminar-me
Nesta virada de ano.
LÍQUIDO E PERVERSO POEMA
SOMOS SERES AQUOSOS
ANFÍBEOS EM NOSSAS MÃES
BORBOLETAS FLUÍDAS
SUIBMARINOS EM NÓS MESMOS
SOMOS SERES AQUÁTICOS
LUNÁTICOS
FANÁTICOS
EMBLEMÁTICOS
MAS TRANSPARENTES
EM NOSSAS COURAÇAS
SOMOS SERES
INCOLORES
INODOROS
INSÍPIDOS
INDOLORES
E SOMOS AINDA HUMANOS
MAL CHEIROSOS EGOISTAS
COLORIDOS EGOCENTRICOS
ARDIDOS AMANTES
E SÁDICOS DIRIGENTES
AQUÁTICOS
A ESPERA DE NOSSA
SUBLIMAÇÃO