Conjugar o verbo AMAR

 

AMAR


Amar é possível
apenas na primeira
pessoa do singular.

Conjugado no presente do indicativo.

Intransitivo é o outro
Que insiste em me conjugar
em outros tempos!
 

 

 

M A N T R A S H

  

- Poesia multimídia -

por ROSANE MAGALY MARTINS

& ALEXANDRE VENERA

(inserido no acervo virtual do Museu de Arte Contemporânea de New York)

 

 

EXCEPCIONALIDADE 

Por um só momento

espreito o tempo

atrás da porta.

 

O silêncio a minha volta

relega-me a solidão

de mim mesmo

 

Minhas linhas tecem

com o fio do sofrimento

perplexo que estreita o peito.

 

Dentro de mim

posso tudo

e você,

contudo,

sem entender.

 

Dentro de mim

há anjos e demônios

há palavras e sons

há tessituras de asas

farfalhar de nuvens

o choro da mãe

e o abandono do pai.

Tudo.

 

Tudo

dentro de mim

a espera

a espera

a espera

do novo tempo

nova era

em que minhas asas

enfim, baterei.

 

 

DIA DE MORRER 

Ser assim, num só instante,

repleta e inconsistentemente vazia.

As dores do mundo, submersas em mim.

Submundo interno, afogado nas suas armadilhas.

 

Andaria aos poucos, devagar.

Sorveria pequenos goles de chá de malva,

quente como aquele dia arquivado na memória.

 

Definho de uma doença incurável.

Alma cruel e distorcida.

E aquelas crianças não brincam mais,

sob o perigo do alto do morro

e cercas de arames farpados.

 

Dia de feira.

Dia de fiado na venda do Geraldinho.

Dia de finados na igreja do Vertolino

No fim do mês era maledicência e fome.

 

Ser assim, um só instante demais.

As agruras, as teias tecidas em teares de morte.

O algodão endurecido nos alvéolos que matam.

Nos mata aos poucos:

nos mata sem a fome agonizante.

 

Diários de um tece-lã

um tece-dor

de tessituras

da alma só.

 

Agora é apenas um nome esquecido

num cemitério popular de algum subúrbio.

A pensão da viúva não é reajustada há anos.

 

 

E todos esperam

um novo reencontro,

um recomeço

um novo fiar, tecer

 e crer na vida.

 

 

 

DESEJOS ANUAIS

 A cada ano um desespero

De contas e acertos finais

De cada ano desesperado

Nosso de cada dia.

 

Como se morrêssemos amanhã

após o pulsar da hora certa.

O gosto da champagne brut

Amarga o sorriso da manhã

 

A cada ano um sofrimento

a mais dos já acumulados

De cada ano desassistido

Nosso de cada hora

 

Como se não houvesse amanhã

Antes de cada hora incerta.

Esperar o gosto do beijo

Que me enternecerá o amanhã.

 

Virar o ano

Virar a página

Virar ninguém

Revirar noutrem

Iluminar-me

Nesta virada de ano.

 

 

LÍQUIDO E PERVERSO POEMA

 SOMOS SERES AQUOSOS

ANFÍBEOS EM NOSSAS MÃES

BORBOLETAS FLUÍDAS

SUIBMARINOS EM NÓS MESMOS

 

SOMOS SERES AQUÁTICOS

LUNÁTICOS

FANÁTICOS

EMBLEMÁTICOS

MAS TRANSPARENTES

EM NOSSAS COURAÇAS

 

SOMOS SERES

INCOLORES

INODOROS

INSÍPIDOS

INDOLORES

 

E SOMOS AINDA HUMANOS

MAL CHEIROSOS EGOISTAS

COLORIDOS EGOCENTRICOS

ARDIDOS AMANTES

E SÁDICOS DIRIGENTES

 

SOMOS SERES

AQUÁTICOS

A ESPERA DE NOSSA

SUBLIMAÇÃO

 

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