ÚNICA E EXCLUSIVA
Ave Maria
gratia plena,
Dominus tecum.
Benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus ventris tui,
Iesus.
Sancta Maria,
Mater Dei,
ora pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora mortis nostrae.
Amem.
Não sabia que anjos possuíam a tez murcha, pálpebras caídas sobre olhos azuis. Não me contaram que anjos habitavam a terra, disfarçando suas asas sob camisolas largas, que não voam, mas deslizam sobre pantufas em passos trêmulos. Deixaram de me dizer, quando pequena, que anjos caminhavam pela casa, insones, guardando o sono dos justos. Esqueceram de me contar que anjos habitam lugares tristes, mas que entoam cânticos harmônicos e imprecisos, com suas vozes longevas, suaves de quem já acalentou tantas e tantas noites...
Mara Campos não sabia que naquele lugar escondiam-se raridades, em cada esquecimento. Natasha olhava a tudo, como criança em local novo, tocando tudo não percebia as nuvens entre nós. Ellen, linda, buscava a lucidez que teimava em lhe escapar pelos corredores daqueles andares. Creuza, querendo ser íntima da casa, tremia a voz a cada encontro de olhar com Única. E eu ali, entre tantas e sem nenhuma, sentido os aromas e percebendo o movimento da casa, das cuidadoras, das colegas daquele momento compartilhado.
Quem é única? Eu sou única e especial, assim como cada um de nós o é, em essência e genética. Mas chamada assim só ela, Única, que no encontro do mar de seus olhos com o mel de minha íris, falou: Meu nome é Única. Tenho 80 e 400 anos. Onde estávamos todos, naquele dia, naquela hora, naquele instante? Vivendo o momento único de Única, uma senhora idosa que seus 80 e 400 anos teimavam em degenerar-se pelo Mal de Alzheimer
Uma penumbra estratégica numa tarde de um sábado qualquer, para não ferir a retina dos que já não tinham muito que ver ao espelho além do tempo perdido. De repente, naquela visita gerontológica ao Lar Santa Ana avistei um corpo franzino, amarrotado, leve de uma pequenina senhora que deveria ter, certamente, mais de 80 anos. Ela voltou seus olhos azuis para mim e tremi ao sentir aquele olhar terno me envolver.
Ao seu lado, agachada, senti seu cheiro de tempo e percebi suas maõs, que certamente poderiam ter sido de uma famosa pianista. Seu nome era única, única como ela sempre deve ter sido. Perguntaram se ela cantaria. Ela disse que sim, caso lembrasse. E a freira amável do Lar auxiliou-a a iniciar uma das mais belas interpretações de Ave Maria, em latim, com uma voz um pouco rouca dos anos, mas afinada, onde as palavras vinham de um local onde o Alzheimer não havia se infiltrado.
Confesso que me comovi.
Confesso que chorei.
Confesso que me apaixonei.
E ali fiquei, parada ao lado de sua poltrona.
Contou sobre seus filhos, dos quais lembra nome e profissão, assim como de sua juventude, da viagem na barca de Niterói, onde conheceu seu marido Vasco. Contou de suas pernas alvas, torneadas e cobiçadas pelos homens há muitos perdidos anos atrás. Lembrou de sua viagem até a Ilha da Madeira. Deu a luz quatro filhos, Vasco, ex-gerente da CEF, Rui, comandante da aeronáutica, Mário, industrial e Arno. Lembra que estava no Lar Santa Ana após a morte do marido Vasco, que lhe deixou desorientada, ocorrido há cerca de dois anos atrás. Confidenciou que seu marido sempre lhe mimou e lhe deu tudo o que quis.
Interrompeu o relato para explicar que se apresentou (cantando) num evento junto à Igreja Nossa Senhora da Glória, duas semanas antes (início de novembro de 2005). Durante sua apresentação (Ave Maria em latim) percebeu pessoas olhando-a e chorando. Disse àqueles, após concluir a apresentação: “Por que choram. Hoje não é um dia de festa?”, sem entender que cada um chorou sua solidão e sua perspectiva de um final não glamuroso para suas vidas.
Voltou ao seu mundo de fantasias e recordações, e disse que achava lindo o som do violão: “Eu tocava violão e o Rui tocava piano”. Estudou até os oito anos, e sentava-se sempre na frente “para aprender mais e mais rápido”, confidenciou-me. Seu olhar fitou o horizonte próximo e disse lembrar ainda da fisionomia de alguns de seus professores. Veio de súbito a imagem da morte de seu marido Vasco: “O cemitério protestante novo é muito lindo... Chorei muito. Dói muito perder meu amor” .
Moraram muitos anos no Rio de Janeiro (eu era chique, brinca) mas nasceu em Blumenau mas foi “adotada” por uma família de alemães muito rica que visitava constantemente o Rio de Janeiro.Numa destas viagens, ao saltar da barca Rio/Niterói, de molhou. Um homem bonito e gentil pediu que ela não ficasse triste por ter-se molhado. E no contínuo da conversa perguntou: você acredita em Deus?.Imediatamente percebeu que ele era especial. Um belo homem português, da Ilha da Madeira, o lugar mais lindo do mundo (segundo ela) havia chegado ao seu porto seguro: Única.
Não falou detalhes sobre o casamento, mas disse que foi muito feliz, que ao lado de Vasco visitou mais de oito países e teve seus quatro filhos em Blumenau. Nunca precisou trabalhar. Acha mais importante ser rica de espírito do que ter propriedades e dinheiro. Ressaltou que nunca precisou usar óculos, adorava correr pelos campos e que aprendeu a cantar e se expressar depois de casada. Confidenciou que a pureza de uma pessoa é importante. Blumenau era muito quente. Morou perto da FURB, numa casa linda. Seu marido lhe dizia sempre: viver é a coisa mais linda.
Mas o que Única não lembrou nem fantasiou e ficou nas entrelinhas daquela conversa trôpega, fantasiei eu. Única teria sido uma moça alva, longilínea, de voz mansa e gestos suaves. Seus desejos eram contidos, com o seu riso encoberto por uma das suas mãos. Suas roupas preferidas eram as de seda importada, com cores claras. Criada por uma rica família blumenauense, sentiu o privilégio de ultrapassar as fronteiras do estado, conhecendo diversas capitais do país. Conheceu seu príncipe português que lhe abriu as portas de todos os continentes. Foi abençoada pela maternidade quatro vezes, cuidou de sua família e de seu marido com jeito de fada. Agora sozinha, com seu corpo menor e menos ágil, com a memória corroída pelo Alzheimer, habita em si a alegria e canta em latim para suas colegas de casa asilar.
Única foi um presente.
Um presente de Natal.
Uma fada de 80 e 400 anos.
Um anjo que está prestes a retornar ao lar...
Ave Maria
gratia plena,
Dominus tecum.
Benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus ventris tui,
Iesus.
Sancta Maria,
Mater Dei,
ora pro nobis peccatoribus,
nunc et in hora mortis nostrae.
Amem
Por ROSANE MAGALY MARTINS